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terça-feira, 12 de outubro de 2010

A regra do 1º.

Ao andarmos no trânsito em Luanda deparamo-nos diariamente com um fenómeno a que eu chamei a regra do 1º.

Imaginem uma fila de trânsito perfeitamente ordenada, cada qual no seu lugar à espera pacientemente da sua vez de andar. Não é uma visão que se consiga ter muitas vezes em Luanda, muito à custa da supracitada regra..

Se de alguma maneira, num dos lados da fila, ou quem sabe em ambos, existir espaço que pareça que cabe um carro..mais minuto menos minuto lá vem um inteligente que acha que tem mais pressa que toda a gente e ocupa aquele espaço. E pronto. Foi tudo que era preciso. Assim que o 1º o faz..logo atrás vêm dezenas a ocupar o espaço ao lado daquele como se de repente em vez de uma faixa fossem duas ou três, ou 6!!

É incrível como há sempre alguém que é mais esperto, mais importante, ou tem mais pressa que os outros, e dá o 1º passo..e depois os outros todos que acham que são tão espertos, importantes ou têm tanta pressa como o primeiro e vão logo atrás.

Imagino que seja por isso que se vêm tantos putos em todos os recantos de Luanda..quando vai o 1.. upa upa..

quinta-feira, 16 de abril de 2009

A vida e a morte em Luanda.

Talvez seja um pouco cedo para escrever alguma coisa a este respeito, visto estar cá há pouco mais de uma semana, mas há certas coisas que é impossível deixar de reparar e hoje na viagem diária para o trabalho, houve um click que me fez pensar..

Normalmente procuro vir o mais atento possível a tudo que vai passando pelo vidro do carro, descortinar as pessoas, movimentações, expressões..na tentativa de absorver tudo e ir-me preparando aos poucos para quando tiver de andar por estas ruas sozinho.

Em Luanda não há transportes públicos, existem agora uma meia dúzia de autocarros, mas não tem expressão numa cidade com meia dúzia de habitantes.
assim sendo, o transporte da população é assegurada pelos "candongueiros", que basicamente são umas carrinhas de 9 lugares, que muitas vezes levam 15 pessoas, conduzidas por autênticos kamikazes, deixo aqui uma foto tirada por alguém..

estou por isso habituado a ver essas carrinhas apinhadas de gente, a transportar mercadorias para serem vendidas pelos passageiros e até já estou habituado a vê-los andar em contra mão, infringindo todas as regras de transito e do bom senso, mas aparentemente vou ter de me habituar também a vê-los como os carros funerários de Luanda.

Hoje vi uma dessas carrinhas na estrada, a andar devagar, com a porta da mala levantada, um pequeno caixão la dentro, uma fotografia de um rapazito em cima de um caixão, e duas mulheres, presumo que familiares, ao lado..

Foi uma sensação algo estranha, no meio da confusão que é o transito de Luanda, aquela carrinha passou e não me pareceu que alguém se apercebesse..de um lado estava Luanda, gente por todos os lados, do outro aquela carrinha com um miúdo morto e a tristeza de quem o acompanha, não havendo o mais pequeno simbolismo que nós estamos habituados a ver nos cortejos funerários.

Morrem muitas crianças em Luanda, maiores ou mais pequenas, muitas delas atropeladas, vitimas de uma cidade que não tem condições para acolher tanta gente..

Por outro lado, é impossível andar por Luanda, sem ver milhares de miúdos, a brincar, a saltar, a dançar, a tentar partir-te o vidro do carro com pedras e ferros..

Há imensas crianças e imensas mulheres gravidas, que nos fazem pensar que a população deste país, desta cidade, não vai parar de aumentar nos próximos anos, e, se por um lado, Angola é um grande país que pode suportar muitos milhões de habitantes, Luanda, essa, está estagnada, a asfixiar-se a cada dia que passa, pelas pessoas, pelo transito, pelos buracos, pela falta de condições de higiene mínimas.

pronto..foi um bocadinho de Luanda, de mim, para vocês *